Fortuna



Cantora, compositora e atriz de origem judaica, Fortuna cresceu em São Paulo ligada à música, à dança e ao teatro. Na década de 1980, enquanto encenava suas primeiras peças, compôs um repertório de canções em parceria com o poeta curitibano Paulo Leminski (1944 – 1989). O capítulo decisivo de sua carreira, porém, começaria a ser escrito a partir de uma viagem a Israel, em 1991. Foi lá que a arte de Fortuna ganhou uma orientação inovadora: ao ouvir uma obra do cancioneiro ladino, ela percebeu ter encontrado a matéria-prima para uma proposta estética única, em que música, dança e dramaturgia convergem na recriação de um riquíssimo legado cultural. O ladino, dialeto judeu-hispânico, é o idioma dos sefaraditas, os judeus de Sefarad, nome hebraico da Península Ibérica.
O contato com a tradição musical ladina mudaria a vida de Fortuna e daria um novo rumo a sua obra. Al ela iniciou um trabalho de pesquisa e resgate das canções medievais que permaneciam praticamente esquecidas. O resultado dessa busca iluminou sua trajetória. Nos anos seguintes, ela gravaria, de forma independente, seus sete CDs: La Prima Vez, Cantigas, Mediterrâneo, Mazal, Cælestia, Encontros e Novo Mundo. Com distribuição na Argentina, Espanha, Israel e Estados Unidos, a discografia de Fortuna soma quase 100 mil cópias vendidas. As gravações receberam elogios da crítica e destaque em premiações de peso. Mediterrâneo venceu o 10º Prêmio Sharp de Música como melhor disco produzido em língua estrangeira e o selo americano Putumayo, especializado em coletâneas de “world music”, incluiu cinco canções gravadas por Fortuna em seus últimos lançamentos.
Os espetáculos encenados para cada um dos discos levaram Fortuna a se apresentar com grande sucesso em várias capitais brasileiras, como Recife, Porto Alegre, João Pessoa, Manaus, Belo Horizonte, Curitiba, Rio de Janeiro, Salvador, além das turnês internacionais, com passagens por Paris, Nova York (em uma aclamada apresentação na sede da ONU), Miami, Amsterdã, Haia, Antuérpia, Évora, Buenos Aires, Santiago, Caracas e na comemoração dos 3.000 Anos de Jerusalém.
Além de ter fornecido a substância para o desenvolvimento de sua carreira musical, o trabalho de pesquisa histórica voltado para a recuperação de tradições musicais esquecidas credenciou Fortuna para uma atividade paralela: a de diretora artística do Festival “Todos os Cantos do Mundo”. Com sete edições realizadas pelo SESC de São Paulo, o evento revelou artistas cuja música não toca nas rádios e que dificilmente se apresentariam em outros palcos no Brasil.
À frente do festival, Fortuna pôde manter uma conexão permanente com as mais diversas formas de expressão musical. Essa espécie de intercâmbio conferiu ao seu trabalho uma nova consistência – que se reflete na evolução da voz, na sofisticação dos arranjos e na escolha de colaboradores. Os melhores exemplos dessa abertura de horizontes são encontrados nos CDs Cælestia, gravado com o Coro de Monges Beneditinos do Mosteiro de São Bento (SP), Encontros, que além dos Beneditinos inclui a participação do Coro do Projeto Guri, formado por crianças e adolescentes de Osasco (SP) e Novo Mundo, em que aparece o artista pernambucano Antônio Nóbrega. A colaboração dos convidados resulta em uma obra que vai além de recuperar a tradição, dando a ela um novo sentido.
Seu programa on-line “Todos os Cantos” tem garimpado as preciosidades sonoras do planeta, veiculado pela Rádio UOL e acessado por internautas de inúmeras regiões, o programa é um verdadeiro marco na história do rádio pela internet.
Como atriz, Fortuna participou do musical José e seu Manto Technicolor, de Andrew Lloyd Weber, dirigido pelo premiado Iacov Hilel. O sucesso do espetáculo, que é também voltado para crianças e adolescentes, despertou na artista o desejo de orientar seu foco para o público infantil. Nasceram assim novos projetos.
Em novembro de 2008, a cantora lançou, numa produção do Selo SESC, o CD e o espetáculo Na Casa da Ruth. No repertório, poemas da escritora Ruth Rocha musicados por Hélio Ziskind.  A direção do espetáculo é de Naum Alves de Souza. O espetáculo já foi visto por mais de 20 mil espectadores ao longo de mais de 3 anos.
Celso Masson, jornalista e crítico de música.


Comentários

Postagens mais visitadas